O perigo das inverdades numa sociedade cada vez mais apressada
Por: Páscoa Themba Buque
ETICAndo
Há um perigo, silencioso, que cresce a cada dia dentro da nossa sociedade: o hábito de acreditar sem confirmar.
Hoje, uma informação falsa consegue viajar mais rápido do que a própria verdade. Basta um áudio, uma fotografia, um vídeo fora do contexto ou uma simples narrativa repetida várias vezes para gerar medo, revolta e até tragédias.
A sede de informar às vezes torna muitos de nós muito rápidos a partilhar, mas lentos a reflectir, perdendo, em muitos casos, o cuidado de perguntar: “Será verdade?”
E, lamentavelmente, quando a verdade deixa de ser prioridade, a mentira encontra espaço para destruir reputações, dividir comunidades e colocar vidas em risco.
Em Moçambique, os exemplos não faltam, as informações distorcidas sobre questões de saúde pública que já levaram pessoas a adoptar práticas perigosas, acreditando estarem a proteger-se; temos os casos ligados a desinformação sobre o cloro versus cólera, mostraram como o desconhecimento, aliado à circulação irresponsável de conteúdos, pode transformar a desinformação em ameaça real à vida humana.
Os recentes relatos sobre supostos “desaparecimentos do sexo” após contacto com determinadas pessoas, estão a gerar pânico em algumas comunidades, criando suspeitas, perseguições e agressões. Em muitos desses episódios, a emoção tomou o lugar da razão, e o boato passou a valer mais do que os factos.
Mais preocupante ainda é quando o medo colectivo alimenta comportamentos violentos.
E nisto tudo, o grande problema das inverdades não está apenas na mentira em si, mas nas consequências que ela produz, pois uma informação falsa pode incendiar bairros, destruir famílias, incentivar violência e provocar mortes.
Vezes me questiono: será que quem partilha tem noção da responsabilidade que carrega nas mãos? Ou não se apercebe que está perante uma inverdade?
Será que temos noção da diferença entre informar e espalhar rumores? Porque nem tudo o que chega aos ouvidos ou telefone merece ser partilhado, nem tudo o que muitos dizem passa automaticamente a ser verdade.
Em bom rigor precisamos de ser mais cautelosos, cientes de que uma sociedade emocionalmente cansada, assustada e sem hábito de questionar, torna-se terreno fértil para manipulações. Por isso, educar para o pensamento crítico é hoje uma necessidade urgente. Precisamos reaprender a ouvir, verificar e pensar antes de reagir. Porque quando as inverdades passam a comandar comportamentos, todos corremos o risco de ser vítimas de acusações, julgamentos e injustiças alimentadas apenas pelo medo e pela ignorância.
Vamos todos defender a verdade, porque não é apenas um acto intelectual; é um compromisso ético com a vida, com a justiça e com a humanidade.
_ETICAndo sempre_

